Medicina Metabólica
Parei a canetinha e o peso voltou: o que fazer agora
10 Out 2026 · 7 min de leitura
Dr. Fábio Miranda Ribeiro · CRM-RJ 52-0111398-4
Esta é uma das frases mais repetidas no consultório: "eu parei, e o peso voltou todo". Quem diz isso quase sempre completa com uma segunda frase — "eu falhei". A segunda frase é a que não se sustenta.
O reganho de peso depois de interromper as novas terapias medicamentosas — as que o paciente chama de "canetinhas" — é um achado consistente nos estudos. Ele não é a exceção de quem não se esforçou: é o comportamento esperado do corpo quando o tratamento sai e nada entra no lugar.
O que acontece quando a medicação para
A medicação age sobre os mecanismos que regulam fome e saciedade. Enquanto está em uso, ela empurra esse sistema em uma direção. Quando sai, o sistema volta a operar como antes — só que agora em um corpo que perdeu peso e, por isso, gasta menos energia e defende as próprias reservas com mais intensidade.
É um mecanismo fisiológico de defesa, não um defeito de caráter. O organismo trata a perda de peso como uma ameaça e se organiza para reverter.
O que o estudo STEP 1 mostrou um ano depois
Na extensão do estudo STEP 1, 327 participantes foram acompanhados durante um ano após a suspensão do tratamento. Em média, recuperaram cerca de dois terços do peso que haviam perdido.
Em números: ao fim do período sem tratamento, o peso do grupo que havia usado a medicação estava 11,6% acima do peso inicial, contra 1,9% no grupo que havia recebido placebo. Em quilos, a diferença média foi de 12 kg contra 2 kg (Wilding et al., 2022).
E quando a perda já tinha sido grande?
O SURMOUNT-4 testou exatamente esse cenário. Participantes que já haviam perdido pelo menos 10% do peso em 36 semanas de tratamento foram sorteados para continuar a medicação ou passar a receber placebo por mais 52 semanas.
No grupo que parou, 82% recuperaram mais de um quarto de todo o peso perdido. E 74 dos 308 participantes desse grupo recuperaram 75% ou mais da perda — ou seja, voltaram quase ao ponto de partida (análise do SURMOUNT-4, 2025).
A leitura prática
Os dois estudos apontam para a mesma conclusão: a medicação funciona enquanto está em uso. Isso não a desqualifica — apenas mostra que o plano precisa incluir o que vem depois dela. Interromper sem uma estratégia de manutenção é, na prática, planejar o reganho.
O que pode entrar no lugar
Não existe uma resposta única, e essa é justamente a parte que depende de consulta. Mas há caminhos concretos, e eles não se excluem:
- •Gastroplastia endoscópica ESG — a restrição é mecânica e continua existindo no dia a dia, sem depender de dose ou de data de aplicação. No ensaio clínico MERIT, com 209 pacientes de IMC entre 30 e 40, o grupo submetido à ESG teve perda média de 13,6% do peso corporal total em 52 semanas, contra 0,8% no grupo que fez apenas mudança de estilo de vida (Abu Dayyeh et al., 2022).
- •Ajuste do tratamento medicamentoso — manter, reduzir ou suspender é uma decisão clínica, tomada com exames e acompanhamento, não por conta própria.
- •Medida da composição corporal — bioimpedância e calorimetria indireta mostram se o que está mudando é gordura ou músculo, e qual é o seu gasto energético real.
- •Treino de força e plano alimentar — não como complemento, mas como parte do tratamento. É o estímulo mecânico que mais protege o músculo durante a perda de peso.
Para quem já operou e recuperou peso
O reganho depois de cirurgia bariátrica tem caminhos próprios, e eles dependem da cirurgia que foi feita: a ressutura endoscópica reconstrói a restrição em quem fez sleeve, e o TORe reduz a anastomose dilatada em quem fez bypass. Nos dois casos, quem define é o exame — não o relato.
Como isso se aplica no Instituto
No Instituto Dr. Fábio Miranda Ribeiro, a consulta começa pela sua história e pelos seus números: calorimetria indireta para medir o gasto energético real, bioimpedância para ver a composição corporal e exames para avaliar o que é indicado no seu caso. A partir daí se decide o que entra, em que ordem e com que acompanhamento.
O objetivo não é recomeçar do zero. É montar a manutenção que não existia antes.
Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. A indicação de qualquer tratamento é individual e depende de avaliação clínica. Nenhum resultado é garantido.
Referências científicas
Wilding JPH, Batterham RL, Davies M, et al. Reganho de peso e efeitos cardiometabólicos após a suspensão do tratamento: extensão do estudo STEP 1. Diabetes Obes Metab. 2022;24(8):1553-1564.
Ver publicação originalHorn DB, Linetzky B, Davies MJ, et al. Mudança de parâmetros cardiometabólicos conforme o reganho de peso após a retirada do tratamento em adultos com obesidade: análise post hoc do estudo SURMOUNT-4. JAMA Intern Med. Publicado online em 24 de novembro de 2025.
Ver publicação originalAbu Dayyeh BK, et al. Gastroplastia endoscópica em manga para o tratamento da obesidade de classe 1 e 2 (MERIT): ensaio prospectivo, multicêntrico e randomizado. The Lancet. 2022;400(10350):441-451.
Ver publicação original
Os artigos científicos citados podem ter acesso restrito junto à editora. Este texto resume e interpreta os achados publicados, sem reproduzir o conteúdo original — o link acima leva à fonte oficial.
Continue lendo
Reganho após as canetinhas
A página com o caminho completo para quem parou a medicação e viu o peso voltar.
Medicação ou gastroplastia endoscópica ESG: como decidir
As duas opções lado a lado, com os critérios usados na consulta.
Seu cérebro sabe que você emagreceu
Dr. Fábio Miranda Ribeiro na CNN Brasil, sobre por que a fome aumenta depois de perder peso.
Gastroplastia endoscópica ESG
Como é feita, para quem é indicada e como é a recuperação.